sexta-feira, 31 de maio de 2019

As redes sociais são uma bosta, mas e aí?

Todo mundo já sacou que as redes sociais são, por N motivos, uma bosta. Mas embora a saída seja óbvia - voltar aos blogs - ainda é complicado e cheio de detalhes e questões sem respostas.

O blog nunca morreu. Mas em um momento onde é bonito falar mal da aparência caseira da Internet da década de 90, os blogs viraram um troço profissional que é intimidador.

Em 98 eu tinha um blog no blig, a plataforma do IG, o provedor de Internet gratuito do cachorrinho fofo, e eu me sentia muito bem obrigado de estar escrevendo bobagens. Numa época onde a gente comemorava atingir mil views do blog, e calculava que pra cada comentarista umas cem pessoas tinham lido seu texto e isso era GENTE PRA CARALHO, eu tinha um nível bem bão de leituras e interações.

Era gostoso, despretensioso, e eu misturava todos os temas porque era isso que um blog era: um diário aberto com espaço para escrever o que quisesse. Tinha poesia e textão e desabafo e citação. As vezes tinha quinze postagens numa semana e nenhuma por um mês.

E eu era a pessoa mais comum da blogosfera.

Quem queria algo mais compromissado, fazia uma página. Com o tempo dava para ter uma pagina dentro do blog para separar alguma coisa que você queria dar fácil acesso.

Tinha muitos lugares pra comprar layouts, pegar layout pronto ou fazer um frankencode em cima de um layout.

Era mal feito. Gloriosamente mal feito porque DIY.

Eu assumo que fico intimidada para escrever blog hoje porque tudo é profissional, higiênico, planejado.

Um B-log na origem parecia a porra de um txt caras. O ponto todo dessa merda era que produzir conteúdo não era coisa para eleitos. Todo mundo podia compartilhar conhecimento.

Foi para isso que a Internet surgiu.

Acredito que mais do que nunca, é preciso voltar aos blogs. Despretensiosos, feios, com 150 views por mês e CARA ISSO É VIEW PRA CARALHO SIM, FODA-SE O QUE A INTERNET COMERCIAL TE DIZ.

Eu tentei retomar esse blog trocentas vezrs, mas não funcionava exatamente por isso. Eu achava que era preciso fazer uma coisa bonita e que fosse validada oos parâmetros dos blogs de hoje em dia.

Só que não.

Eu sei que é estranho falar em "volta aos blogs" para quem faz blog. Mas o que a gente diz com 'volta ao blog" é quase um manifesto por uma visão menos higiênica, profissional e construída por uma lógica excludente onde só mantém um blog quem tem tempo, conhecimento de design e marketing e ferramentas de programação.

Eu quero a voltados blogs feios, eternamente em construção, onde a gente escreve e compartilha e vive e foda-se.

A proposta toda é muito simples.

Todo textão que você escreveria no Facebook, escreve. Mas publica no blog

Toda coisa que você achar legal de compartilhar, posta no blog, com os devidos créditos e o motivo pelo qual você tá compartilhando.

Nós queremos sim saber do seu cachorro, do seu aquário, do seu filho, dos seus dramas e das coisas que você fez e achou incríveis. Porque são essas coisas que ilustram de onde vem o texto mais filosófico cabeçudo ou o humor mais bunda que essa sua cabeça pode trazer.

Sem pretensão. Sem planejamento. Sem ficar vinte dias polindo texto ou esperando o horário certo do dia certo pra postar.

Não importa se tem uma imagem pra chamar atenção. Você tá aqui pra escrever e gritar para as paredes, as interações virão com o tempo e com a formação de uma comunidade de blogs.

Estão tentando fazer a Internet ser das grandes corporações. Vamos lembrar que não. É pras pessoas que essa coisa surgiu. É pras pessoas que ela deve existir.

(sim, eu sei que o Blogger é do Google. Mas neste momento é o que tem pra hoje. Aceito indicações de como sem dinheiro ou suficiente conhecimento, conseguir manter um blog fora dessas plataformas - o que seria ideal)

segunda-feira, 20 de março de 2017

Neurodiversidade e personagens de RPG

Quase a totalidade dos meus personagens de RPG tem algum tipo de traço neurodivergente. Não é para ganhar pontos na ficha - estou interpretando um lobisomem que começou a história com a firme intenção de superar seus ferimentos* mentais e por isso não peguei os pontos de defeito, estou só fazendo pelo prazer da interpretação - e muitos sistemas nem preveem essas interações trocadas por pontos, e eu e outros players colocam isso na hstória do mesmo jeito. Pensando nos personagens que já fiz na vida, muitos deles tem algum elemento neurodivergente - ou como os neurotípicos costumam dizer, neuroatípicos.

Capacitismo e psicofobia é mato na nossa sociedade. Depois de uma vida sendo neurdiversa, sendo disgráfica e convivendo com crises depressivas, eu percebo isso de forma muito cotidiana (e reconhecendo meu absoluto privilégio comparado com pessoas que tem que lidar com coisas muito mais pesadas dentro desses elementos). Para mim, é natural que meus personagens sejam como eu sou. Do mesmo jeito que quero mesas de jogo onde existam mulheres e pessoas não binárias, que exista variedade étnica, que existam diferentes orientações sexuais, sinto a necessidade de personagens que tenham deficiências e questões mentais - e que isso não faça deles menos heróis.

Poxa, mas então você fica jogando com personagens parecidos com você? Nem sempre. Na real, na maioria das vezes eu busco personagens que não são nem um pouco como eu. O que eu faço é me pautar na minha experiência e na experiência das pessoas que conheço ou leio na internet para não cair em estereótipos e caricaturas. Não quero o malkaviano Coringa na minha mesa (e como narradora de vampiro, só libero malkav para quem eu sei que entende o que isso significa). Jogar com personagens neurodiversos exige um pouquinho de pesquisa, mas para mim, pesquisar para criar personagens é um prazer, e eu me afundo em sites de psicologia e livros que detalham minúcias do cenário com a mesma empolgação. Algumas coisas minhas sangram para o personagem? Assim como com todo mundo. Mas isso não invalida a experiência. As pessoas questionam quando seu personagem foge da norma em algo que você vivencia ou convive, mas não questionam quando ele repete padrões que são socialmente dominantes, mesmo que não sejam adequados ao personagem.

Porque incomoda as pessoas que um assunto tabu seja tratado com naturalidade.

Curiosamente, o que menos sangra entre eu e meus personagens são as questões mentais deles. O que sangra disso, na real, é essa sensação incrível de que podemos ser heróis da nossa história mesmo que nosso cérebro lute contra. Que podemos ser heróis e tornar elementos que a sociedade não aceita em nossos pontos fortes.

Então sim, meus personagens tem desvantagens mentais. Sim, isso vai fazer parte de como construo minhas histórias. E as vezes vou sim usar experiências minhas como laboratório. Porque é o que todo mundo faz, mesmo sem reparar. O personagem não é você. As vezes ele não tem nada de quem você é. Mas suas experiências vão afetar a interpretação. Do mesmo jeito que nosso jeito de pensar na atualidade vai influenciar o jeito como um personagem medieval age, as estruturas sociais excludentes que nos envolvem fazem perceber detalhes que tornam mais rica a interpretação de papéis.

Nunca vou fazer um personagem que é extremamente piadista por um motivo simples: eu tenho uma enorme dificuldade em entender piadas, e mais ainda em fazer piadas - existem dezenas de formas de fazer um personagem bem humorado sem depender de piadinhas. Na eventualidade de um personagem meu lidar com automutilação ele vai fazer isso se queimando ou qualquer outra coisa que não seja se cortar, porque eu tenho uma aflição terrível de cortes. Assim como não me vejo jogando com um personagem de extrema direita, porque isso me deixaria terrivelmente desconfortável. Assim como interpretar um personagem hetero é um esforço de interpretação - embora eu faça isso às vezes. Um dos personagens com que jogo agora tem fobia a toque. Quando fui pesquisar relatos de pessoas nessa condição, descobri que o que descrevem da sensação de ser tocado é parecido com o que eu sinto quando estou em uma crise de sobrecarga sensorial, o que foi uma coincidência peculiar que me permitiu que em uma cena onde ele descrevia o que sentia, eu soubesse o que dizer, mesmo que a experiência dele seja alienígena para mim, que sou uma pessoa de expressão física ao extremo.  

Nossa Sarah, outro personagem que lida com abuso de substâncias? Cara, eu sei que percentuais muito grandes da população vão passar por coisas do tipo na vida. Então para mim isso é um elemento comum o bastante para aparecer de diversas formas. E como eu jogo muito, e a muito tempo, colecionei personagens com essa característica - a porcentagem deles no todo dos meus personagens é um pouco menor do que seria em uma amostra populacional de verdade. Mas como é um elemento tabu, chama atenção.

Não se repara em quantos personagens hetero e brancos uma pessoa faz, porque essa é a norma. Não se repara que poderia estar fazendo a pergunta contrária: porque todos os meus personagens são neurotípicos? porque meus personagens não são hetero? porque eu jogo com o Brujah Iconoclasta e não o Idealista, porque meu mago age exatamente dentro dos tropos de magia que são repetidos à exaustão e não experimento algo diferente? 

A gente usa nossas experiências para construir nossos personagens. E quando eu decidi que contar a história de outro homem branco hetero e cis não me interessava, eu comecei a abrir meu olhar para permitir que outras histórias fossem contadas. Por uma questão de justiça social? Não, com toda sinceridade. Foi pelo prazer de ver outros jeitos de expressar o mundo. Foi para ser mais divertido e mais rico. Serve como laboratório para enriquecer as histórias de ficção que eu escrevo. Para eu me tornar mais empática. E para eu ver contadas as histórias não só de pessoas como eu, mas também as histórias de pessoas que passaram pela minha vida e são incríveis. Mas acima de tudo, o que torna prazeiroso para mim jogar RPG é a quantidade infinita de histórias que existem para ser contadas.

E cada pessoa tem a possibilidade de trazer histórias únicas para a narração coletiva. Então sim, eu dou voz a essas histórias. Cada um de nós dá voz para as histórias a que está familiarizado. A gente só não se dá conta disso. Meu mundo é um mundo colorido e cheio de gente que foge do normativo. Então vamos explorar isso.









imagem: Moira, minha personagem de Shadowrun, fusora elfa que tem acumulado histórias bem peculiares nesses anos todos de jogo e que com crises depressivas ou sem elas vai chutar bundas e arranjar encrenca com poderes maiores do que ela poderia lidar - e sobreviver para contar a história.


* usei o termo ferimento mental por causa de um texto muito bacana que li uma vez sobre um cara do exército canadense que trabalhava com soldados que sofriam de stress pós traumático. Ele dizia que era muito diferente encarar o TEPT/PTSD como um ferimento de guerra como qualquer outro ferimento físico ou como doença, e que isso influenciava na forma como os soldados conseguiam superar essa vivência. Não é difícil acompanhar o raciocínio disso, e adotei a ideia de que meu personagem vê os distúrbios que sua vida como guerreiro trouxeram como uma cicatriz de batalha, ainda que invisível. Tinha lido a respeito em outro contexto (uma leitura casual), mas trazer essa referência para a construção do personagem foi bem legal.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Rogue One - Mais Wars, Menos Star - Sem Spoilers

Ontem a noite fui ver Rogue One - Uma história de Star Wars. A premissa do filme é simples, e muito bem executada. Entrou fácil na minha lista de filmes preferidos da vida.

Aliás, antes de falar sobre o filme, bothans. Bothans morreram para trazer as informações sobre a SEGUNDA Estrela da Morte. Então, não reclamem "cadê os bothans" porque eles ainda vão morrer... para OUTRA teimosia do império, não essa. 

Não foi um filme fácil. Eu, que choro mesmo no cinema, sem vergonha nenhuma disso, atravessei de "acho que vou chorar" para "estado de choque" tantas vezes que nem sei. É um filme sombrio. Muito adequado para o momento político que o mundo vive, para ser sincera.

É um filme sobre esperança. Não a baboseira melosa que normalmente os filmes empurram sobre esperança, com flores e coelhinhos. Mas o tipo de esperança que a gente aprende no Abismo de Helm, com Guthwine e Anduril brilhando na escuridão, espadas como chamas brancas em um noite de desespero, esperando um amanhecer que muitos daqueles soldados não verão chegar, para salvar os reinos dos homens. Rogue One são duas horas de Abismo de Helm - o do livro, não o do filme.

Não é um filme fácil. A gente já tinha visto esse tom, essa temática, em diversos episódios das animações (porque Clone Wars é o tipo de coisa que as vezes você questiona "tem certeza que o público alvo é criança?"). Onde o tema da guerra é exposto de forma um pouco mais intensa e os subtextos e questionamentos tem mais espaço. Mas nas telas, até agora estávamos vendo uma violência codificada de conto de fadas. A violência seguia um código onde o bem vence o mal e a justiça impera, onde o mal é punido e o bem premiado.

Agora estamos falando de uma rebelião que se inicia. O momento em que a Aliança vira Rebelião. Em um espaço onde justiça impera e o bem vence o mal, não existe necessidade de rebelião. O código aqui é outro. É mítico, sim, mas outro tipo. Estamos em um mito de descida, estamos mergulhando no reino de quem deve ir para os infernos e retornar de lá... mas sobre isso eu só vou escrever depois, em uma análise com spoilers.

O tema do filme é sacrifício. Saw Gerrera e Galen Erso são um extremo disso, e Cassian Andor e Jyn Erso são o outro. Mas todo o filme, cada personagem, seja da Rebelião ou do Império, se vê diante desse tema em algum momento, tem sua ação guiada e construída por esse conceito. Não existe um frame desse filme que não fale de sacrifício. O ofício sagrado, o colocar uma causa diante de suas necessidades pessoais.

Ao mesmo tempo, é bom ver um pouco mais do Império por dentro. Lembrar quem assiste de que o Império não se vê como vilão. Pelo contrário. Todo mundo dentro do Império tem certeza de que faz o mais correto... talvez tenham mais certeza disso do que os próprios rebeldes.

É um filme duro. As paisagens são lindas e as cenas tem riqueza, mas tudo contribui para essa sensação de estarmos vendo aspectos do universo de Star Wars que o cinema nunca se preocupou em mostrar. Toda beleza é um contraste para a aridez que alimenta a trama. Para longe das fábulas de cavalaria, e dentro dos filmes de guerra do Vietnã...

Embora Star Wars sempre esteja repleto de referências à Segunda Guerra Mundial, a batalha da praia não é uma Normandia (é, eu sei que um monte de lugares comparou assim, mas, não).

Isso é Apocalypse Now.

Até a cor do filme me remeteu a Apocalypse Now.


Esse é um filme de guerra. Empolgante, fascinante e que vai te fazer sair do cinema cheio de questões. Tem cenas de combates espaciais incríveis que vão deixar quem vê eletrizado, e personagens que vão encher seu coraçãozinho de FEELZ.

Acho que por enquanto é isso. Hoje a noite vou ver o filme de novo... dessa vez vou levar uma caixa de lenços de papel.








sexta-feira, 27 de março de 2015

Spoilers de todos os tipos, decepções com finais e coisas do tipo

As vezes, quando estou lendo, abro o livro no final, e leio a última página.

A última página não te fala muito do climax. A última página é um dez de espadas. Qualquer coisa que tinha que acontecer já foi, agora Inês é morta, é aquele é só o último fio do texto.

Forma geral, finais me decepcionam.

Então, já sabendo que a única definição para o final de Mass Effect é "uma bosta", eu fui lá e li o final: a última decisão de Shepard.

E é mesmo uma bosta de níveis galácticos esse final.



Mas volto aos livros.

Ler a última decisão de Shepard foi como abrir a última página do livro e ler, sem contexto algum, aquele trecho. Minha ansiedade fica aplacada, porque eu estou livre do final. Faço isso com coisas que gosto muito, que me deixam com palpitação. E que eu não tenho pressa nenhuma de chegar no fim, mas sei que sou obcessiva demais para conseguir ler/jogar/assistir devagar. E eu quero aproveitar cada segundo daquela imersão, quero me perder naquele cenário, e o final não é tão importante assim. Porque nesses casos, o que importa é o caminho, o percurso que vou fazer para chegar até o fim, que normalmente é só o prenúncio da imensa ressaca que vou sentir quando terminar.

A trilogia Segredos do Poder, de Shadowrun, foi assim. Eu não queria chegar no final (que não é ruim, é bem bom, mas podia ser menos corrido). Não queria dizer adeus a Dodger e Twist de jeito nenhum. Eu estava apaixonada por eles. E pela Heart. E então eu fui lá, e li as últimas duas páginas. E voltei a ler, degustando a história com menos ansiedade, sabendo que no final, as coisas iam entrar nos eixos.

As vezes leio e perco a ansiedade por saber que o final é uma bosta e que só a fanfic salva.

Isso não significa que eu não me importe com spoilers. Muito pelo contrário, eles me irritam profundamente quando eu não procurei por eles e eles caem no meu colo. Tive um de Black Sails que me deixou muito, muito brava. Tive uns de Malévola que fizeram com que desistisse de ver o filme, porque eu simplesmente já sei demais para conseguir, nesse momento, conseguir curtir alguma coisa.

E não quero spoilers de Mass Effect, porque eu quero me virar para dar conta do processo, do meu envolvimento narrativo com o jogo. Eu passei por Virmire sem spoilers. E foi fantástico, emocionante, forte e incrível, e não quero perder isso.

Esse é um os casos onde sua milhagem pode variar. Tem gente que abomina todo e qualquer spoiler. E está certo. Tem gente que aceita todo tipo de spoiler, e está certo também. E tem eu e muita gente ai no meio que considera ok alguns spoilers, mas outros não. Acho que o grande ponto é: se eu procurei uma informação, voluntariamente, que bacana. Mas quando eu tenho uma informação que eu não queria esfregada na minha cara, é chato pra caramba.

Então não seja babaca e não poste spoilers. Nem piadas com coisas que aconteceram no episódio da semana. Não importa o quanto você esteja empolgado, não custa colocar um alerta de spoiler.

E se você se distraiu e soltou um spoiler, peça desculpas. Assuma que fez cagada. Eu já fiz isso. E olha, nem doeu pedir desculpas e me policiar mais.



É raro que eu goste do final de alguma coisa. Red Dead Redemption também tem um final cocô.

Na maioria dos livros, é decepção pura e simples. Um décimo de "eu faria diferente" e nove décimos de estar de saco cheio de moralismo, machismo, racismo, clichê. Especialmente o moralismo, no caso dos finais de histórias, é um negócio que dói na alma de tão frequente.

Esse moralismo também atinge games e filmes e seriados e quadrinhos. Seriados não moralistas é algo que eu ainda tou pra ver. Mesmo os que tem fama de "politicamente incorreto" são moralistas. Filmes sempre caem nessa. Redenção só se dá pela morte, mulheres que transam tem que casar e ter filhos, o destino dos filhos é seguir os passos dos pais, etc, etc etc...

Soma-se a isso o fato de que metade para mais dos finais são corridos. A história tem um passo até chegar perto do fim, ai rola um surto e tudo vira resumo para acabar logo, correndo. Coisas que indicavam uma resolução lenta se resolvem por magia. Pesquisas de anos se completam em uma semana. E o ritmo narrativo se perde para virar videoclip, corte em cima de corte de cena, frenético. Mesmo nos livros. Mesmo nos quadrinhos.

E foi assim que eu aprendi a gostar das coisas pelo percurso e não pelo final.


(*Gostaria de dizer que a trilogia de Jogos Vorazes é uma excessão. O final foi tão ruim, mas tão ruim, tão moralista, desnecessário, babaca, escroto, que eu simplesmente peguei raiva da série toda. Mas isso é a exceção que comprova a regra.)


Eu sou professora de arte. Na faculdade fui martelada até introjetar com o conceito de que o produto final, por mais importante que seja só tem valor como parte de um processo. Esse processo criativo é meu foco de trabalho. Então quando eu me envolvo em narrativas, é o percurso, o processo de desenvolvimento da trama, que me envolve e me dá prazer.

Gosto de pensar em como cheguei até lá. Em todas as sidequest que dei conta, toda a construção de cenário, tudo de incrível que vimos acontecer. Todos os personagens que eu vi se desenvolverem.

Sejamos realistas, quais as chances de eu gostar do final de As Crônicas de Gelo e Fogo?

O final de Fronteiras do Universo, que eu chorava de soluçar e que é perfeito mas é horrível. O final de Senhor dos Anéis, quando você sabe que o mundo de todo modo está condenado à tristeza, por mais que a gente mantenha a escuridão afastada. O final de tantos livros que eu olhei e pensei "é assim?"

Mas tudo bem. Porque o caminho que nos levou até aquele final é que importa. O que aprendemos e nos divertimos e conhecemos. Ninguém tira isso de nós, nenhum final bosta vai mudar todas as dezenas de horas onde me diverti jogando.

E é isso. 2/3 de Mass Effect jogados, mais ou menos, contando as horas que já joguei. E ansiosa, não pelo final, mas por completar o jogo para poder começar de novo com outra classe, e fazer a trilha de Renegade.

Porque não importa o que façam com o John Shepard oficial. Minha história é só minha. Minha história com o jogo é pessoal. Me pertence. E na minha hstória, consigo pensar em finais plausíveis mito menos bostas.





quinta-feira, 26 de março de 2015

Primeiras impressões - Mass Effect

Preciso dividir minha empolgação. Sabe,  eu sempre pego as coisas bem depois,  jogo as coisas com anos de atraso, e ok. Minha lista de jogos para esse ano não tem lançamentos.
Só que normalmente,  por mais que eu goste de um jogo,  a diversão começa e termina dentro dele.  Não é algo que me mobilize. Mesmo Red Dead Redemption,  que é a menina dos meus olhos,  eu não sai atormentando as pessoas sobre o quão fantástico é tudo.  É maravilhoso,  mas é o jogo e pronto. 
Até um mês atrás,  eu não me imaginaria parte do fandom de um jogo.
Ragabash comprou a trilogia.  Promoção,  ele achou que eu ia gostar também,  sei lá os motivos do coiote,  mas ele esfregou a caixa do jogo na minha cara.  Aí o Vlá me questionou: o que eu estava fazendo que não estava jogando ainda? De acordo com o Vlá,  que já me evangelizou para Gears of War,  eu tinha "o dever moral e cívico"  de jogar ME. Por fim,  o Hell disse que era Dragon Age no espaço. Ok,  garotos,  vocês me convenceram.
O grande ponto de Mass Effect é que o cenário é muito bem construído.  O background da história é rico. Os personagens tem profundidade,  as relações entre vc é os NPCs empolgam,  e a construção do universo te convence. Não só a história é muito boa, as subtramas são muito bem pensadas. O jogo tem um dos melhores cenários de scifi fi que eu já vi.  E embora como tudo,  ele tenha questões problemáticas,  tem uma quantidade decente de personagens femininas,  e você pode escolher que o Shepard seja A Shepard.
Jane Shepard é uma mulher negra no meu jogo.
Apesar de não ser assim super inovador,  Mass Effect costura as coisas muito bem. Ele é coeso. O technobabling é funcional. O tal do mass effect justifica trocentas coisas diferentes,  mas te convence.  Ler as entradas enciclopédicas que você vai habilitando,  e as descrições dos planetas,  mesmo que não mudem nada na trama do jogo,  enriquecem a experiência e formam um canon de informações que pode alimentar spin off e fanfiction e RPG de mesa para uma vida.
E a parte opera em space opera... Os romances. As amizades, as citações... As conversas com os NPCs são tão legais quanto as cenas de combate.  Você ama e odeia junto com Shepard.  Existe uma tensão nas escolhas,  porque muitas vezes são escolhas morais complexas,  que exigem um envolvimento com a trama.  Eu estava quase chorando em Virmire.  Cada vez que escrevo effect o Swift Key oferece Garrus Vakarian como próximas palavras,  rs,  porque o Garrus é amor demais gente. Sou Shakarian até morrer.
Sim, tem nome para os shipping mais queridos. Sim,  o jogo tem um fandom que está bem além da média dos jogos.
Não acho que tenha muito pra dizer do jogo que você não ache alguém que já escreveu. Afinal,  o jogo existe a anos. Mas é lindo demais. É empolgante. É um universo ficcional rico,  complexo e coerente,  que merecia ainda mais atenção dos fãs de ficção científica.
E eu vou escrever um bocado inspirada em Mass Effect,  tenham paciência.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Primeiro Encontro das Mulheres RPGistas - como foi

 
Mas o que alimenta meu coração é pensar em como foi um dia bom. Em como eu vi mulheres falando,  fazendo e existindo,  sendo elas mesmas,  em  um ambiente que não é hostil. 
Estava lotado.  Cada milímetro da Terra Magic estava tomado de gente.  A primeira coisa que me chamou a atenção foi que em pleno fim da manhã de domingo,  as pessoas estavam em uma roda de discussão sobre a exclusão sistemática das minas no meio do RPG,  das situações dantescas e dos preconceitos que passamos.  Eu nem consegui entrar na sala,  assisti parte da conversa ali no corredor.  

Desci as escadas,  fui fumar um cigarro,  e lá estava um rapaz,  conversando com outro,  dizendo que nunca tinha imaginado aquelas coisas,  que precisava falar com as minas do grupo de jogo dele,  para ver o que de cagado podia ter feito sem perceber,  e como poderia agora consertar,  tornar o grupo de jogo um ambiente mais saudável.  Vi e ouvi muitas reações assim.  Os caras estavam ouvindo,  e ficaram estarrecidos de se dar conta das cagadas.  

Eu não sou muito de jogar em evento. Não escuto bem,  então é difícil conseguir me concentrar.  Já mestrei muito em evento,  mas se tenho a opção,  gosto mesmo é de conversar com as pessoas. 
E foi o que fiz a tarde toda.  Falamos de boardgame e RPG, de cardgame e de preconceito,  de machismo e intolerância religiosa,  de café e de educação,  de pedagogia e pobreza,  trocamos histórias.  Foi muito bom,  produtivo e divertido.  E enquanto isso,  as mesas de RPG rolavam,  e era bonito ver as mulheres mestrando,  atuando,  se divertindo. 

Um dos pontos que para mim foram mais fantásticos foi o fato de o evento ser amigável para famílias.  Não adianta,  um evento inclusivo precisa ter em mente que as pessoas tem filhos, e muitas mulheres acabam sendo excluídas de participar por isso.  

O número de vezes que a gente teve problemas para carregar o pequeno em eventos,  sabendo que o fato de dividirmos de verdade as tarefas entre dois cuidadores e termos amigos dando suporte sempre nos deixou em posição vantajosa,  e mesmo assim sempre foi operação de guerra,  me torna extremamente solidária. Acho que todo evento precisava pensar nisso. Porque é um pedaço enorme do público que acaba sendo excluído, deixando de participar porque tem filhos. E o encontro lidou lindamente com o assunto. Foi um exemplo a ser seguido por todos os encontros nerds. 
E teve muita coisa que ficou na minha cabeça.  De como as opressões cotidianas se infiltram naquilo que a gente faz.  De como uma mesa de RPG pode ser libertadora e questionadora,  ou só uma repetição do status quo.  De como é difícil que as pessoas entendam que não existe um estereótipo de "mulher rpgista"  de "mulher nerd",  que somos rpgistas,  assim como os caras,  de todos os tipos,  que o que nos define é nossa individualidade.  Não existe o jeito de jogar que as minas gostam,  o tipo de jogo que as minas gostam,  e que se muita menina se interessou por RPG na época do storyteller foi por ser um jogo com mais representatividade e menos chainmal bikini,  não pelo estilo ou tema. Foi só porque a gente não era sistematicamente excluída de participar só por ser menina. (e eu comecei com D&D,  vale dizer). 

Representatividade.  Acho que essa é a palavra para esse encontro e tudo que ele ainda vai gerar.
E vai gerar muita coisa. Colocou engrenagens em movimento que o pessoal nem imagina ainda.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Arena galeria

  Quando entrei na Arena da Campus Party pela primeira vez, o apelo visual do que eu vi foi como me arrebentar contra uma parede de tijolos. O espaço, tomado por bancadas e palcos, estava repleto de luzes coloridas, construções de latas de energético, placas, estandartes, adesivos colados em toda superfície possível misturando frases de efeito e logomarcas, pixações, post its com mensagens nas colunas, cartazes de todo tipo, desenhos de fita crepe no carpete. O som de palestra-show-ventilador-máquina-grito. O visual das pessoas, cheios de referências científicas e de cultura pop misturado com chinelo de dedo e pijama. Existe uma super estimulação visual e auditiva na Campus Party que trás a sensação de estar fora da realidade consensual.

Existe uma estética muito própria na expressão das bancadas da arena da CP e das vivências que acontecem dentro da arena. Eu, que passei a vida estudando conceitos estéticos e a estrutura que fundamenta a expressão artística de alguém, fiquei besta em como aquilo acontecia. Em como esse espaço que por alguns dias é a casa/trabalho/lazer desse monte de gente podia ser também algo que tinha o cheiro de uma zona autônoma temporária, e abrigar uma necessidade de expressão estética tão intensa. A Arena da Campus é uma extensão das expressões de arte urbana, de intervenção no ambiente. A conversa entre o que é tecnologia de ponta e o que é questionamento artístico de ponta se entrelaçam, mesmo sem saber.



Duvido um pouco que a maioria das pessoas participando da marcha das cadeiras nessa madrugada conheça o conceito de happening e a história artística disso, o que não impede que a marcha tenha a estrutura de um. A visão das pessoas andando com as cadeiras erguidas sobre a cabeça tem uma força estética inegável, e por mais que possa parecer pura bobagem, extrapolação de flash mob, caos, "coisa de huehue" ou de gente bêbada (entre outras opiniões menos afáveis no twitter), existe sim uma necessidade de expressão pessoal manifesta, que criou uma estrutura visual e performática.
A marcha das cadeiras. Procure no You Tube e veja a piração

Nas bancadas, tanto pelas associações identitárias de grupo como pelas expressões pessoais, essas manifestações estéticas tem uma presença firme que serve até como cartografia. Aparecem desde grafites até instalações complexas, algumas planejadas e outras que vão surgindo de forma espontânea. Os Case Mods são o exemplo mais pontual de expressão artística planejada. Os objetos decorativos que as pessoas trazem, pelúcias, action figures, banners, bandeiras e estandartes, são um outro grau de expressão planejada, mas que tem menos auto consciência artística. A maioria das pessoas não se vê como produtor criativo quando trás seu bicho de pelúcia para colocar em cima da CPU, mas a exposição disso de forma pública é uma expressão criativa.  

Acho importante explicar esse conceito: você não precisa ser artista para se expressar criativamente. O processo de expressão é natural ao ser humano, e dado o espaço para que isso ocorra, as pessoas vão usar métodos associados à arte tradicional para se expressar.

Entre as manifestações menos planejadas estão as reações das pessoas aos objetos e propagandas distribuídos no evento. O adesivo do canal Syfy colado em todo lugar possível e imaginável, muitas vezes desmontado e remontado para formar outra imagem. Adesivos usados para formar as linhas de um complexo desenho abstrato dentro da porta de um reservado no banheiro. A decoração de CPUs e notebooks com os adesivos distribuídos. A escolha de como organizar as coisas em cima da bancada, formando um espaço seu, único e pessoal. 

A certa altura, para se localizar, coisas como "perto da bandeira da Horda" "a esquerda da bancada com o cone", ou "aquele pc com um cachorro em cima" vão criando a cartografia, o mapeamento mental e afetivo do evento. As pessoas reconhecem essas manifestações e as observam, mesmo sem perceber o valor expressivo do processo.

Se existe um aspecto das vivências da CP que merece uma atenção particular de quem vem, é esse. Por um lado, observar o que é feito. Muita coisa ali pode ser usada como intervenção no mundo aqui fora. Por outro, pensar, o que eu estou fazendo? Qual é a minha expressão nesse espaço? E, se eu tenho uma mensagem para passar, será que não vale a pena assumir essa ação criativa de guerrilha e começar a também intervir nesse lugar?

Sabe o que é isso? O Sarau da Campus, que rola todas as noites.



(esse texto foi produzido na oficina #EscrevinaCampus, mediada pela Cláudia Ideguchi, e como todo texto de oficina, está aberto a críticas estilísticas. Esse blog vive em constante busca de identidade, e comentários ajudam)